Pesquisas eleitorais e crise turca prometem elevar volatilidade nos mercados

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Diante do ceticismo quanto às chances de candidatos reformistas na eleição, o mercado brasileiro vive refém dos boatos envolvendo a corrida eleitoral. Bolsa, câmbio e juros oscilam ao sabor de notícias sobre a corrida eleitoral, sensíveis ao fluxo do investidor estrangeiro em meio à perspectiva de menor liquidez global e crise na Turquia.

Com isso, para a próxima semana, a expectativa é negativa para o Ibovespa, o principal índice de ações Bolsa brasileira, que acumulava desvalorização de 1%, cotados aos 75 mil pontos, na semana encerrada nesta sexta-feira (17). Com o investidor na defensiva, o dólar bateu R$ 3,95 e os juros futuros avançavam, para 8,30% no contrato de DI para janeiro de 2020.

Segundo a análise técnica, a Bolsa não dá sinal claro de tendência no curto prazo. Para baixo, tem bom gatilho de venda na perda dos 76.057 pontos. Neste caso acelera venda rumo aos 73.424 pontos, ou mesmo 69.884 pontos, onde decide se dá continuidade ao movimento. Na contramão, teria que superar os 79.451 para buscar os 82.810 pontos, onde encontraria bom gatilho de compra.

Quanto aos principais participantes do mercado, os investidores institucionais, com o maior peso, seguem aumentando sua posição na ponta vendedora. Já os investidores estrangeiros, segunda maior classe atuante nos futuros de índice, estão comprados e não dão sinal algum de mudança dos planos. Bancos e corretoras, muito menos expressivos, também estão comprados e aumentando sua posição.

Desde o pico histórico atingido em fevereiro, a Bolsa já caiu cerca de 14%. Na terça-feira (14), investidores gringos mais venderam do que compraram ações na B3 em um montante R$ 69 milhões – reflexo de compras de R$ 4,95 bilhões e vendas de R$ 5,02 bilhões. Em agosto, o saldo ainda é positivo em R$ 533,13 milhões. No ano, negativo em R$ 5,57 bilhões.

O dólar, por sua vez, apesar de lateral nas últimas semanas, desenha um padrão altista. Para cima, aciona bandeira na superação dos 4 reais. Neste caso pode acelerar compra rumo aos 4,11 reais, inicialmente, onde pode sentir resistência. Na contramão, mesmo na eventual perda dos 3,86 reais encontraria bom suporte em 3,79 reais.

Quanto aos principais participantes no dólar, os investidores institucionais, com o maior peso, estão mantendo sua posição estável na ponta compradora. Bancos e corretoras, segunda maior classe atuante na divisa, estão vendidos, mas vêm diminuindo sua posição desde o início da semana. Os investidores estrangeiros por sua vez, estão comprados nos contratos futuros da moeda, mas começaram a diminuir sua posição nas últimas duas sessões.

Apreensão eleitoral

A próxima semana promete emoções no quesito pesquisas eleitorais. São esperados os levantamentos nacionais do Ibope e do MDA/CNT, na segunda-feira (20), e do Datafolha, na quarta-feira (22). Ingredientes com alto potencial de volatilidade. Qualquer sinal de avanço de Geraldo Alckmin aos dois dígitos de intenção de voto tende a animar o mercado.

De acordo com a pesquisa XP/Ipespe, Fernando Haddad cresceu de 13% para 15% em relação à pesquisa da semana passada, em cenário com apoio do ex-presidente Lula. Jair Bolsonaro lidera com 21%, enquanto Marina Silva e Alckmin (o preferido do mercado) empatam no terceiro lugar, ambos com 9%. Votos brancos e nulos somam 24%.

Antes da divulgação de novos levantamentos, atenção ao segundo debate entre os candidatos à Presidência da República, nesta sexta-feira, às 22h. Álvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriotas), Ciro Gomes (PDT), Jair Bolsonaro (PSL), Guilherme Boulos (PSOL), Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) e Marina Silva (Rede) confirmaram presença.

Vale destacar que foi dada a largada para a campanha política nas ruas. Para as propagandas em rádio e TV, o início será somente no dia 31 de agosto.

Para completar o quadro de apreensão, o cenário externo não ajuda. As bolsas internacionais passaram a cair diante de novo tombo da lira turca, que vinha se recuperando nos últimos dias. Para a agência de risco Fitch, a resposta do governo turco à depreciação da moeda não deve ajudar a estabilizar o câmbio e a economia de forma sustentável.

Resumo da semana

A semana começou com a crise turca chegando bruscamente e fazendo preço em um cenário geopolítico já conturbado. Recep Tayyip Erdogan, que para ditador só falta o título, maestro do colapso da lira turca, desqualificou a autonomia de seu banco central e afirmou ser vítima de uma conspiração, ameaçando romper com os Estados Unidos.

Apesar de o BC turco tentar mostrar algum sinal de vida, garantindo liquidez aos bancos e diminuindo o compulsório, não explica por que não consegue elevar os juros no país, o que ajudaria a conter a inflação que gira em torno dos 16% ao ano.

Quanto à questão da prisão do pastor protestante Andrew Brunson, em 2016, acusado de conspiração para derrubar Erdogan, o tribunal turco decidiu por rejeitar o pedido de liberdade do pastor, criando mal-estar e nova fuga dos investidores para ativos mais seguros.

A Casa Branca também mostrou como pode ser marrenta e comunicou que, mesmo que o pastor seja libertado, não vai baixar as tarifas sobre o aço e alumínio turcos e ainda decidiu dobrar as tarifas alfandegárias da Turquia, o que, sem dúvidas, complica ainda mais a situação do país.

Os Estados Unidos têm um histórico de apaziguador em momentos de crise dos emergentes, mas o impasse em relação à prisão do pastor americano dificulta um acordo entre Ancara e Washington. Trump exige a imediata libertação do pastor.

A lira acumula uma desvalorização de quase 39% frente ao dólar em 2018. Além da injeção de liquidez promovida pelo banco central turco para acalmar o mercado, a bolsa de Istambul proibiu vendas a descoberto esta semana. Mas ambas as medidas são vistas como meramente paliativas pelos investidores. O receio é que o governo turco tenha que recorrer ao FMI para evitar o calote, manobra que estaria comprometida sem o apoio dos EUA.

O secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, disse na quinta-feira que os Estados Unidos estão prontos para impor ainda mais sanções à Turquia caso o pastor Andrew Brunson não seja libertado. Trump endossou a ameaça via twitter.

O índice de volatilidade CBOE, um indicador da ansiedade dos investidores, subiu durante a semana para o nível mais alto em mais de um mês, mas a economia americana não para de dar sinais de sua força.

O índice de otimismo para pequenas empresas, relativo a julho de 2018, marcou seu segundo maior nível na história de 45 anos da pesquisa, com 107,9 pontos, muito próximo do recorde de 108 pontos, em julho de 1983. O relatório também estabeleceu novos recordes em termos de geração de empregos. Dentre este grupo de empresários, 23% estão planejando criar novas vagas e 37% relataram vagas de emprego que não conseguiram preencher.

A Ásia, que já vinha sofrendo com a crise comercial, sentiu diretamente os reflexos da questão turca. A derrocada da lira está puxando junto as moedas dos países emergentes, com destaque para o yuan chinês, que já vinha sendo intencionalmente desvalorizado pelo governo de Pequim.

O Xangai Composto voltou a tocar um bom gatilho de venda no diário que, caso acionado, pode levar o índice ao seu menor nível em 4 anos. Uma das empresas em destaque foi a Tencent, maior e mais utilizado portal de serviços de internet da China, que revelou a primeira queda de lucros em 13 anos.

Os indicadores da economia chinesa também não ajudaram. Sua produção industrial teve expansão anual menor do que o esperado pelos investidores, 6% ante os 6,4% previstos. As vendas no varejo também vieram abaixo do esperado, subindo, no mesmo período, 8,8% ante os 9% projetados anteriormente. Os investimentos em ativos fixos de áreas não rurais registraram a menor taxa de crescimento desde o fim de 1999.

Mesmo a notícia de que Pequim retomará as negociações com Washington não foi suficiente para animar os investidores, mas a escalada da retórica sobre as tarifas alfandegárias diminuiu após ser noticiado que Pequim enviará uma delegação a Washington para buscar uma solução ao crescente conflito comercial entre China e Estados Unidos.

Possivelmente, no fim da semana que vem, o vice-ministro do comércio chinês, Wang Shouwen, será recebido na Casa Branca por autoridades do segundo escalão ministerial de Donald Trump.

Apesar da simbólica retomada das negociações entre Washington e Pequim, os investidores seguem temerosos com a guerra comercial entre as duas super potências e suas possíveis consequências em relação ao crescimento da economia global. Mas uma coisa é fato, a notória vantagem que a China tem na balança comercial com os EUA está por um fio.

Na Europa, os principais mercados sentiram de perto o calor turco. Grandes bancos europeus como BBVA, Unicredit e BNP Paribas têm forte exposição à dívida da Turquia, acendendo o alerta do Banco Central Europeu. Para quem se lembra da crise do subprime em 2008, não é difícil visualizar grandes bancos quebrando de repente.

Com o entrave entre as negociações da Turquia com os EUA, existe o receio de que a Rússia entre na brincadeira financiando Erdogan. Moscou afirma a possibilidade de uma guerra econômica se Washington insistir com as sanções contra os russos.

O governo de Recep Erdogan anunciou sua retaliação ao aumento das tarifas alfandegárias impostas pela administração do presidente Donald Trump. Segundo o decreto publicado, a Turquia vai dobrar as tarifas aplicadas a uma série de produtos americanos, incluindo veículos de turismo, bebidas alcoólicas, tabaco, arroz e produtos cosméticos.

Os investidores sentiram certo alívio depois de o Catar ter se disponibilizado a investir 15 bilhões de dólares na economia otomana. Paralelamente, Erdogan também encontrou na Alemanha um novo aliado para tentar travar a crise financeira.

Angela Merkel telefonou, na quarta-feira, para Erdogan e lembrou ao parceiro que a Turquia pode contar com a ajuda da Alemanha na crise que enfrenta. Segundo a agência Bloomberg, Merkel afirmou: “Ninguém tem interesse numa desestabilização econômica da Turquia”. A Alemanha é o maior parceiro comercial da Turquia, com o comércio entre os dois países atingindo 37 bilhões de euros em 2017.

Em conferência com investidores estrangeiros, o novo ministro das finanças turco, Berat Albayrak, afirmou que o combate à inflação é uma das prioridades máximas de sua gestão. O ministro sublinhou que a estratégia implica em uma coordenação entre política monetária e política orçamentária, uma vez que apenas a primeira não seria suficiente.

As manchetes europeias também destacaram a Itália. O governo recém-formado de Sergio Mattarella ameaçou pôr fim à reforma previdenciária iniciada pelo governo anterior e fez sérias advertências sobre o euro. Para o governo italiano, a moeda única europeia pode entrar em colapso se o Banco Central Europeu não limitar a diferença entre a rentabilidade dos bônus dos países membros da comunidade. Esta diferença vem aumentando com a proximidade do fim dos estímulos promovidos pelo BCE.

O Brasil está diretamente ligado à questão turca, não pela exposição a seus títulos, mas porque está no mesmo grupo econômico, os emergentes. Fugir do risco significa, entre outras coisas, fugir também do Brasil.

As moedas dos emergentes seguem sofrendo com a crise. O rand sul-africano, a rúpia indiana, o yuan chinês e o peso argentino são exemplos de divisas que sofreram muito desde o auge da tensão. A Argentina, que já vinha capengando com sua economia, tem agora a maior taxa básica de juros do mundo. O BC dos nossos hermanos aumentou de 40% para 45% o juro no país para tentar conter a desvalorização de sua moeda.

Sobre a corrida presidencial, Rosa Weber tomou posse como presidente do TSE e teve como primeira missão impugnar a candidatura do expresidente Lula, indicando o ministro Luís Roberto Barroso para apreciar o caso. O PT protocolou o petista na quarta-feira (15) no Tribunal Superior Eleitoral. O caso tem até 17 de setembro para ser julgado.

Com a aproximação do horário eleitoral, o PT faz de tudo para que o “presidenciável” Luiz Inácio Lula da Silva não tenha sua candidatura impugnada e possa ir à TV. Quanto mais barulho e tumulto, melhor para a esquerda que ainda vai argumentar que Lula foi excluído injustamente da disputa. Se a decisão passar do dia 29 de agosto corre o risco de Lula aparecer no horário eleitoral gratuito de televisão.

No TSE, já somam em sete os pedidos de impugnação à candidatura do petista. O ministro Barroso preferiu levar o caso ao plenário do tribunal em vez de decidir monocraticamente.

Já o candidato Geraldo Alckmin, preferido do mercado, teve compromisso no Ministério Público de São Paulo, onde foi depor em um processo de improbidade pelo recebimento de 10,3 milhões de reais de caixa dois da Odebrecht nas campanhas de 2010 e 2014.

Na quinta-feira, notícias de uma possível denúncia contra Geraldo Alckmin pelo Ministério Público de São Paulo, pelo crime de improbidade administrativa, tirou qualquer chance de reação do nosso mercado. A martelada final veio com a notícia de uma aliança, admitida por FHC, entre PSDB e PT contra Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições.

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